COLUNAS
12/02/2008
O Carnaval Empresa S/A: “Nosso Samba, Sambou... “
Por : Pettersen Filho

Surgido como manifestação caricata natural do Povo Brasileiro, nos distritos e vilas do Brasil Interior, em meio as procissões e congadas, o Carnaval é, no entanto, um período de festas regidas pelo ano lunar, com as suas origens voltadas à antiguidade, recuperadas pela Igreja Católica , com começo cronológico marcado pela Folia de Reis e com final demarcado pela Quarta-feira de Cinzas , às vésperas da Quaresma, justamente os quarenta dias que antecedem a Semana Santa , outro ritual do Cristianismo , culminado com a Paixão de Cristo .

Cunhado na própria expressão “ Carnaval ”, “ adeus à carne ”, quer conotar uma espécie de ressaca da carne, em que, após o destempero e a folia, o Cristão busca entrar em retiro, despindo-se dos valores mundanos da matéria, voltando-se para uma vida mais espiritualizada, refletindo o período de privação da própria Quaresma , em que a Semana Santa está por vir.

Trazido pelos moradores da Ilha da Madeira, quando da Colonização Portuguesa, contudo, o Carnaval vem perdendo rapidamente a sua valoração religiosa e cultural, original, passando cada vez mais a se tornar um grande evento: Comercial e Lucrativo, com ares até de Industria.

Distante dos blocos caricatos de bairro, das alegres bisnagas de lança-perfume com que cresceram nossos pais, e afastados dos saudosos bailes de salão nos clubes sociais, originais, em que marcou época, o carnaval saiu às ruas das grandes cidades, assaltando as avenidas, perdendo o seu contexto original de manifestação religiosa ou folclórica, passando a ser regido por interesses muito mais políticos e comerciais, de hoje em dia, profundamente ligado a gênese do Poder e à Administração Pública.

Desde os inocentes bailes de máscara de Veneza ou Paris, ainda na sua raiz européia da Idade Média, no Brasil o carnaval ganhou sonoridade própria, ritimo e a cadencia do Samba, como maiores expressões, subindo os morros e as favelas, fundindo-se com o interesse de bicheiros e do trafico, há muito tempo dissimulados em algumas Escolas de Samba , no mais das vezes, entre um desfile e outro, na Márquez de Sapucaí, com luxuosos carros caricatos, porta bandeiras e suntuosas abre alas, algumas importadas, apenas para aqueles dias, diretamente das telas globais, a exemplo da Atriz Juliana Paes e outras, completamente estranhas ao Samba no Pé , deusas absolutas do carnaval, como Claudia Leite e Ivete Sangalo, travestidas de Povo Brasileiro.

Da manifestação religiosa originária, em que o Cidadão crédulo, desprovido de meios e fundos, durante o amargor de todo o ano, permeado pela ignorância e opressão, improvisava com restos de panos e penas, a sua fantasia, de Orfeu do Carnaval , com capacidade de transfigurar o seu mundo de pobreza, em suntuosos palácios, e em um reinado próprio de belas princesas e súditos, durante os três, e ébrios, dias, a festa ganhou pesados investidores, cordão de isolamento, bilhetes de acesso e público expectador.

Não é à toa, portanto, que o resultado do Carnaval do Rio de Janeiro, no ano passado, encontra-se sob “ Judice Moral ”, diante de uma CPI na Assembléia Estadual, e, contando, como investidores, com figuras tão diversas, como o Presidente Hugo Chaves da Venezuela, até Medalhões do Jogo do Bicho e Políticos de Plantão, onde, o Povo, mesmo, que é bom, não entra: Tornou-se somente Espetáculo para os Direitos de Transmissão dos Canais de Televisão, para algumas poucas Comunidades Envolvidas e para “ Gringo ” ver.

No carnaval deste ano, por exemplo, a Petrobrás e suas conveniadas, foi a maior investidora, seguida pelo Estado do Rio de Janeiro e pela Prefeitura Municipal.

Diante disso, se vai ganhar a Portela, a Beija Flor, o Salgueiro ou a Mangueira , somente para falar do Carnaval do Rio de Janeiro, Jogo de Cartas Marcadas , ora politizado e instrumento de manipulação de massa, com direito à Censura e ao Impedimento, reportando o caso em que um carro temático, versando sobre o Holocausto, e com Apologia a Adolf Hitler, foi vetado de sair às ruas, como ícone da maior e mais Livre Expressão do artista, tanto faz o resultado.

Isso, sem comentar o Bilionário Negócio dos Trios Elétricos e Abadás S/A, de Salvador, ou das Sombrinhas Eletrônicas, Cibernéticas e Robotizadas do Frevo S/A, de Recife, ou do Bumba Meu Boi S/A, de Parintins.

Dito isso, penso que o Cidadão Comum, aquele dos trapos de pano costurados e, com o cocar, das penas de galo na cabeça, do antigo carnaval de bairro, dos confetes e das inocentes serpentinas, enfim, dos blocos caricatos: Todos perderam.

Aliás, como bem dizem as marchinhas dos antigos Carnavais de Salão: “ Há quanto riso. Há quanta alegria. Há mais de mil Palhaços no Salão... ” “...São três dias de folia e brincadeira pra tudo, tudo, terminar na Quarta-feira... ”

Semana que vem...

Tá lá o Cidadão , de novo na Fila: ..., do Banco, do Supermercado, do Ônibus, da Previdência e dos Constantes Assaltos do nosso Perrengue Brasil S/A.

Antuérpio Petersen Filho.

"As opiniões expostas aqui, não necessariamente refletem a opinião da empresa Papini Estudos Jurídicos. O autor, assim, responsabiliza-se, no âmbito civil, pelo conteúdo publicado"
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