Por Antonio Baptista Gonçalves
A sociedade brasileira tem enfrentado debates em questões controvertidas como: aborto, pena de morte e a condenação de uma gravadora pelo suposto incentivo à violência doméstica em decorrência do refrão “um tapinha não dói”.
A preocupação em responsabilizar e coibir o incentivo à violência tem uma justificação intrínseca que transcende a música propriamente dita, e qual seja: o incentivo à banalização da violência.
Quando um determinado grupo torna sucesso um refrão de que um tapinha não dói abre-se um precedente perigoso para uma determinada parcela da população, em especial, para os maridos, namorados e companheiros que agridem suas mulheres.
No mesmo esteio, tivemos uma novela que fomentava a violência ao exibir, no horário nobre, cenas reiteradas de agressão entre marido e sua mulher através de uma raquete de tênis.
Quando a letra de uma música e a criação de um refrão é levada em conta resta claro que a sociedade tem um problema maior do que a imposição de uma multa.
A real motivação que reside na polemica do tapinha é outra: o medo! Não apenas da agressão, mas também de um fenômeno que se intensifica na população brasileira: o medo.
Para convalidar a sociedade do medo basta o relato de alguns casos violentos recentes: o assassinato de João Hélio, de Liana e seu namorado, dos pais de Susane Richtofen, dos pais que marcaram com ferro quente o filho e, o ainda não explicado, assassinato da criança Isabella Nardoni.
E esse desequilíbrio social não é produto exclusivo brasileiro, pois, também temos acontecimentos estrangeiros graves como o desaparecimento da jovem inglesa Madeleine, os assassinatos, injustificados praticados por crianças nas escolas norte-americanas, os longos seqüestros na Colômbia, etc.
O fenômeno da violência cresce na sociedade contemporânea e em alguns países, em especial o Brasil, a cada novo caso grave há a retomada da discussão sobre o endurecimento das leis penais.
Quando, em verdade, o real motivo que permeia a sociedade atual não é endurecer as sanções, mas sim, criar nessa solução uma esperança de abreviar o sentimento que mais aflige a sociedade do século XXI: o medo.
Medo esse que está disseminado no Mundo, ainda mais com os acontecimentos que ocasionaram na derrocada da arrogância de uma nação que se considerava um exemplo a ser seguido: os Estados Unidos da América.
Com os atentados terroristas que culminaram com a queda do maior símbolo norte-americano, as torres gêmeas, o medo assolou aquela nação a ponto de ser deflagrada uma guerra contra um inimigo oculto, tudo para restaurar a confiança da população em seu governo, num falso sentimento de equilíbrio e segurança.
E, em verdade, esse é o maior medo que permeia o imaginário da população mundial: afinal quem é o inimigo?
Casos como o da menina Isabella, que um dos suspeitos do assassinato é o próprio pai obriga uma reflexão necessária se sabemos quem é o agressor atual e como combatê-lo.
Se nem a relação de parentesco é mais respeitada o que podemos esperar do conceito de sociedade atual?
Afinal, o conceito de sociedade nada mais é que a convivência harmônica entre as pessoas em busca da paz social num determinado espaço geográfico e histórico. Entretanto, nos parece claro que as agruras do homem são provocadas pelo próprio.
Exemplos recentes são as duas guerras mundiais e vários outros conflitos armados como Israel e Palestina, Estados Unidos e Iraque, etc.
O homem, ser social, não consegue conviver sem o conflito com seus semelhantes e parece condicionar seu crescimento às guerras.
O tempo consolidou que o conflito social é a mola motriz da sociedade, exemplo de tal afirmação é o avanço social após grandes conflitos, o maior caso de desgraça coletiva, ou melhor, genocídio, foram as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, que devastaram o Japão e como temos aquele País atualmente? Uma superpotência.
Mesmo exemplo para Alemanha, França, Inglaterra, países devastados nas duas grandes guerras mundiais e que hoje tem uma economia próspera, até mesmo os Estados Unidos que enfrentaram a crise de 1929 surgiram como grande potencia ao final da II Guerra.
Nesse paradoxo, temos pessoas que evidenciam ainda mais essa dicotomia entre certo e errado e recebem o rótulo de criminosos, aliás, merecido, pois, nada justifica tirar a vida de um semelhante.
Em meio a esse caos, os valores sociais parecem cada vez mais distantes e o medo fomenta o que pode vir a ser um futuro sombrio.
As pessoas tidas como de bem estão cada vez mais acuadas e com medo desse inimigo invisível, porque se um pai pode ser suspeito de matar sua própria filha, quem pode atestar a idoneidade de um vizinho?
De tal sorte, que o perigo pode, literalmente, morar ao lado e, em casos como esse de grande pressão a sociedade tente a se rebelar se os pedidos de providencias forem transformados em exigências e, principalmente, se houver a certeza de que o Estado se tornou inoperante e ineficiente para coibir a violência, a própria sociedade poderá fazer a justiça prevalecer.
São os casos dos justiceiros...
Será que a sociedade atual está tão perdida a ponto de esperar por um super-homem ou um salvador da pátria? Se a resposta for afirmativa o universo fantasioso dos quadrinhos que antes mais parecia uma distração aos mais jovens representará uma esperança social quando todos os outros remédios falharam.
Bons tempos quando a justificação da criminalidade eram apenas os problemas sociais, a falta de educação, pois ao menos, havia uma solução, agora, o inimigo é tão oculto quanto à solução do problema.
Antonio Baptista Gonçalves